História de um contágio: como uma peça de Fritz Kater contaminou todo um festival
A iconografia é muito Alemanha anos 70, a maneira de interagir com o mundo é muito terra-de-ninguém século XXI (como se fosse possível fazer andar toda a realidade, mesmo a mais insuportável, para a frente e para trás como no ecrã táctil de um iPhone). As cinco personagens de 5 Morgen podem sinalizar um tempo indefinido, mas, quer venha do passado, do futuro ou do presente, este é um lugar inabitável: o lugar da paranóia, do apocalipse-agora, da doença, do contágio imparável (resumindo: a consumação do mundo como fenómeno viral).

Parada de zombies, ou de sobreviventes, a peça de Fritz Kater foi o último acto de um festival dominado por uma ideia também ela inabitável, a do terrorismo como forma de acção já não excepcional mas perfeitamente estabelecida. Mas também foi a primeira das cinco peças encomendadas e encenadas expressamente para o projecto TERRORisms a chegar ao palco, em Outubro de 2013, na abertura da temporada inaugural de Armin Petras como director do Schauspiel Stuttgart. Em certo sentido, foi ela a contagiar o festival temático que, um ano e meio depois, o mesmo Armin Petras acolheu em Estugarda, não sem alguma comoção pública, juntando à sua as outras quatro produções associadas (We chew on the bones of time, do Nationaltheatret Oslo; The Dragonslayers, do Jugoslovenko dramsko pozoriste; God Waits at the Station¸do Habima National Theater; La Baraque, da Comédie de Reims) para um brainstorming final sobre o assunto.
Como é que se anuncia a uma cidade (e logo a uma cidade directamente marcada por uma experiência terrorista, a do Grupo Baader-Meinhof), e a uma audiência, que de todos os temas possíveis se escolheu falar precisamente deste? “Foi para isso que me trouxeram de Berlim [antes de chegar ao Schauspiel Stuttgart, dirigia o Maxim-Gorki Theater]: para pôr as coisas a mexer aqui”, explica Armin Petras minutos depois da última função de 5 Morgen que encerrou o festival. “Digamos que não foi um problema explicar à cidade, e nomeadamente aos seus responsáveis políticos, o que queríamos fazer. Embora a reacção também não tenha sido: Uau, fixe, vamos lá fazer isso.” Procedimentos especiais à parte (“O departamento de polícia deu-nos um número de telefone e explicou-nos que grupos podiam aparecer e o que teríamos de fazer se aparecessem – não foi o caso”), a liberdade para tratar o terrorismo foi total. Ao ponto de gags como a instalação de um falso detector de metais à entrada do teatro ou a aparição de uma falsa mulher-polícia no bar do Schauspiel Stuttgart terem sido possíveis: “Foi uma ideia do nosso cenógrafo. Concordámos que seria interessante explorar as várias possibilidades de trabalhar sobre o terrorismo, hoje, enquanto artistas.”
Armin Petras garante que pessoalmente aprendeu com isso: “O mais importante para mim foi perceber que ao encenarmos os ataques terroristas se torna mais fácil viver com eles. Porque de repente já não estamos sozinhos com esse problema e com esse medo – há mais 500 pessoas connosco na mesma sala.” O director do festival aponta God Waits at the Station, a anatomia de uma bombista suicida que se faz explodir em Israel, como um exemplo de como é possível ir muito além da paranóia numa sala de teatro: “Pude perceber quais são as circunstâncias sociais, económicas, políticas e religiosas de um fenómeno como o dos bombistas suicidas palestinianos. Agora posso lidar melhor com isso.” Talvez não haja muito mais a fazer, como sugere o espectáculo que o Nationaltheatret Oslo produziu para o ciclo TERRORisms, enquanto convalescia do trauma fundador do massacre de Utoya, em que 69 pessoas perderam a vida às mãos de um norueguês aparentemente normal, Anders Breivik. É isso que é preciso aprender, admite Armin Petras: “O terrorismo vive connosco.”

Em Estugarda, por mais anos que tenham passado sobre os praticamente vizinhos julgamentos de Stammheim (a prisão onde entre 1972 e 1977 apareceram mortos vários membros do Grupo Baader-Meinhof), esse statement é particularmente verdade. É um nome inscrito na memória colectiva, e no próprio espaço público, mas ainda estará vivo? O director do Schauspiel Stuttgart, que chegou à cidade mais de 30 anos depois dos acontecimentos de Stammheim, diz que não tanto. “Os mais velhos sabem da história, mas os mais novos não creio. Há outros problemas mais prementes hoje, como as violações da NSA e o terrorismo salafista – por isso mesmo quis que este festival se chamasse TERRORisms, no plural. Mas claro que é especial fazer este festival numa cidade que tem uma linha de metro a terminar em Stammheim. Eu próprio conhecia a palavra dos filmes que o Fassbinder fez nos anos 70, mas só percebi que era tão próximo de Estugarda quando cá cheguei.”
Perspectivas
Como uma profecia auto-cumprida, um ataque terrorista num resort de Sousse, na Tunísia – do qual resultaram 38 mortos, todos europeus – interrompeu à distância o programa do festival. “Foi assim desde o início do processo: enquanto estávamos a escrever estas peças, enquanto estávamos a ensaiá-las, centenas, milhares de pessoas morreram em atentados. Há um número crescente deste tipo de ataques, infelizmente não foi assim tão surpreendente a coincidência com o festival”, diz Armin Petras. Mas terá sido por isso, por serem obrigados a assistir a esse terrível espectáculo diariamente nas notícias, que os espectadores não quiseram vir confrontar-se com ele numa sala de teatro? “Há razões diferentes para não ter havido uma enchente de público: é Verão, é um tema difícil e duro e as pessoas aqui no Sul da Alemanha gostam de usar o tempo livre que têm para se divertir. Mas não fiquei amargurado nem revoltado com isso. Propusemos uma agenda de acontecimentos muito intensa, e a cidade não é assim tão grande.”
Para 5 Morgen, a cidade foi grande o suficiente. “As críticas não foram muito boas, mas mesmo assim fizemos a peça 27 vezes em quatro países e tornou-se um sucesso. Tivemos imensas lotações esgotadas, apesar de termos vindo para uma sala secundária, longe do centro, numa zona que não tem propriamente muita vida.” Ao longo destes dois anos, Armin Petras viu o espectáculo crescer e também mudar de figura: “Em Oslo as pessoas riram-se até dez minutos antes do fim; em Sibiu todo o contrário. Em Estugarda foi uma mistura das duas coisas. Ouvi as pessoas a comentarem: ‘Mexem tão bem os corpos’. Porque aqui ninguém trabalha com o corpo, apenas com o computador e com o rato.”
É uma questão de perspectiva. Como foram uma questão de perspectiva as cinco peças reunidas no festival: “O espectáculo norueguês e o espectáculo alemão mostram até que ponto o facto de não termos fé, de não acreditarmos nem em Deus nem em nós, é um problema para a sociedade ocidental. O espectáculo sérvio mostra que o terrorismo é uma batalha com 500 anos. O espectáculo israelita mostra que há lugares no mundo em que as pessoas estão tão perto umas das outras mas têm interesses tão antagónicos que tem de haver terrorismo. Estes miúdos que se voluntariam para os atentados não têm trabalho nem casa nem água. No Norte de África 45% da população masculina entre os 18 e os 28 anos está desempregada. Um assistente social de Essen disse que 95% dos voluntários que saem da Alemanha para as fileiras do ISIS cresceram sem pai. O terrorismo não tem como não ser um projecto de vida.”
É uma conclusão terrível para se chegar depois de cinco dias a pensar no assunto. Uma conclusão, diz Armin Petras, em que vai continuar a pensar nos próximos tempos. “A ideia de uma organização terrorista ser o pai que não tiveste é teatralmente muito forte. Acho que é a próxima história em que vou trabalhar.”
E assim o contágio continua.
Published on 13 November 2015 (Article originally written in Portuguese)